Corpo como encruzilhada: entre o pessoal, o coletivo e o ambiental
- Gabriela Santos

- 21 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Em tempos de tanta busca por alinhamento, bem-estar e propósito, é comum ouvirmos discursos que colocam o corpo como um espelho da alma ou um templo do espírito. São imagens potentes, sim, mas que por vezes podem ocultar uma dimensão essencial: a do corpo como encruzilhada de forças históricas, culturais e políticas.

Autoras e autores da educação somática como Thomas Hanna, Bonnie Bainbridge Cohen e Moshe Feldenkrais, assim como pensadores das ciências humanas como Merleau-Ponty, Bourdieu e Foucault, apontam para o fato de que o corpo não é uma entidade isolada. Não somos apenas soma de dimensões física, mental e espiritual. Somos também expressão viva de relações sociais, de memórias coletivas, de atravessamentos ambientais e simbólicos.
Quando pensamos o corpo apenas como um veículo individual de expressão ou como recipiente do inconsciente, corremos o risco de reforçar uma lógica de responsabilização pessoal que ignora o contexto. Como se a saúde, a criatividade ou o bem-estar fossem apenas fruto de esforço próprio, descolado das condições históricas que moldam nossos modos de sentir, pensar e agir.
A inclusão da dimensão sociocultural e ambiental, nesse sentido, não é um adendo. É um eixo central. É reconhecer que o corpo é também:
Corpo socializado: Como mostra Pierre Bourdieu com o conceito de habitus, incorporamos modos de mover, perceber e reagir a partir de condições sociais. Aquilo que aparece em terapia como um "bloqueio" pode ser, na verdade, a expressão de uma normatividade cultural, não apenas uma questão pessoal.
Corpo político: Michel Foucault revelou como as instituições regulam os corpos, produzindo obediências sutis. Sem essa consciência, podemos apenas reproduzir opressões internalizadas, mesmo em práticas que parecem libertadoras.
Corpo ecológico: Pensadores como Gregory Bateson e Humberto Maturana lembram que a vida se faz em relação. A degradação do ambiente, a violência estrutural, a solidão são traumas que impactam o corpo tanto quanto feridas pessoais.
Não há saúde fora da teia da vida.
A arte e o movimento, nesse contexto, são mais do que meios de expressão. São formas de escuta e revelação. São lugares de desnaturalização: quando dançamos um gesto condicionado ou desenhamos um sentimento interditado, podemos reconhecer que aquilo que parecia tão "nosso" é também herança, é história encarnada.
E é nesse ponto que uma prática terapêutica comprometida com a verdade da vida se diferencia. Ela não busca apenas "curar" sintomas individuais, mas abrir espaços para que a consciência coletiva e ecológica possa emergir no corpo. Porque a verdadeira liberdade corporal é aquela que sabe onde está pisando. E escolhe, com sensibilidade e presença, como dançar com a vida.



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